Pocinha de lagrimas II

Vem cobrinha vem



O tempo ia frio e seco, o pasto da serra era muito escasso, e o pequenito mal agasalhado de trapos esfarrapados, a cada dia lá seguia para os baldios, com uma dúzia de cabras e algumas ovelhas , dois cordeirinhos e três cabritinhos, que o rapaz já sentia uma grande dor de alma ao saber a sorte que iriam ter aqueles animais saltitantes que nunca deixavam as mamitas das mães.

Por vezes o rapas sentado no penedo da fraga pensava porquê sua mãe nunca lhe podia dar um pouco de carinho, sem que o Senhor Morgado Conde de Margarida não insultasse aquela que sempre o embalava ás escondidas mas com medo da rudeza do senhor das redondezas onde todos da aldeia lhes prestava vassalagem.

Sempre que o pequeno entrava no quinteiro com as cabras, lá vinha o Conde ver o peso dos cabritos, e com má cara virado para o moço, dizia estes cada dia estão mais magros , a páscoa está á porta, amanhã levaras sova se os animais chegarem arrepiados, pois a brincadeira não te deixa encaminhar os animais para bom pasto.

Noite de insônia e de medo, tendo o palheiro por cima da corte das cabras como o seu grande palácio e a presa do quinteiro era o seu lavatório com o quarto de banho para as suas necessidades, mais á frente entre o couval; desde que se não esquecesse de cobrir as fezes.

De manhã pegando na saca dependurada na sebe logo ao descer das escadas presumido conter umas azeitonas e um naco de pão milho para matar a fome durante o dia; mas a mãe não se esquecia de depositar um pequeno naco de queijo na corte das cabras escondida do Morgado de Margarida mas onde o moço nunca se esquecia de o meter entre os trapos que o cobriam.

Lá seguia monte fora por vezes tocando em sua flauta feita de cana de bambu melodias que ouvira sua mãe cantarolar já lá iam anos. por vezes boiava de uma maneira que só os pastores compreendiam a linguagem, mas os animais esses sim seguiam até o lugar determinado.

Ali com seu amigo Joli assim se chamava o cão de Castro Laboreiro que o defendia de tudo e de todos mesmo do próprio Conde de Margarida; com o cão guardando o rebanho sentava-se contra um penedo abaixo do penedo da fraga do qual tantas historias ouvira contar a respeito da cobrinha dos olhos azuis.

Talvez a princesa mourisca encantada de pois de milênios. confiante no cão e depois de uma noite de insônia com o medo do Morgado cheio de sono apenas disse vem cobrinha vem, enche-me meu sono de amor, faz-me feliz na vida que não vivo, talvez um dia na vida que viverei.

F oram duas horas tão belas que o rapas passou correndo com sua mãe, abraçando-a; perguntando lhe pelo pai, a mãe chorando respondeu; enviaram-no para o degredo por ordem do Conde de Margarida,; a cobrinha levou-o visitar o pai nas poucas horas de sonho.

Grande abraçar de seu pai ao reconhecer seu filho pelo seu próprio retrato com sua mãe que guardava como um precioso tesouro; lembrança de tantos abraços e beijos de sua mãe recebidos dos tempos em que o país estava livre da ambição do Conde de Margarida.

Seu pai abraçando-se dizia;,,, se eu pudesse voltar,,, a nossa aldeia seria uma grande família cheia de alegria; a cada dia haveria festa depois das nossas horas de trabalho.

Pareciam sinos tocando a seu ouvidos, o pequeno foi com a mão e encontrou os chocalhos e os cornos da malhadinha que lhe lambia a cara como procurando-o acordar para seu almoço; na ânsia de acordar parecia-lhe ter ouvido uma vós que lhe dizia, lembraste sempre da cobrinha dos olhos azuis e eu voltarei para te arrebatar ao teu sofrimento e dar-te o amor, família, e a alegria que te roubaram.

Por entre urzes e mato macio pareceu-lhe ver rastejar em direção ao penedo da fraga, talvez a cobrinha entrando no seu palácio encantado ao bater do meio-dia,,,,,,,, a seguir
O pequeno esfregou os olhos mais uma vez para tomar realidade do que se tinha passado...

Sonhou; mas que belo sonho; e dizia para com ele, mas a cobrinha disse-me para a chamar sempre que fosse necessário.

a malhadinha deitou-se muito perto do rapas e todos os outros animais se deitaram de baixo do frondoso carvalho com a exceção dos cabritinhos e cordeiros fazendo o Joli dar umas corridinhas para manter os animais de baixo de sua guarda; depois que o moço comeu o naco de pão e as azeitonas juntamente com o queijo que sua mãe ás escondidas lhe pendurava na corte das cabras; chamou a malhadinha e pegou na escudela fazendo jorrar o leite com que se deliciou a beber.

Pegou na flauta e deu duas pifradelas como chamando outros pastores que não tardaram a responder, meia hora mais tarde estavam juntos fazendo grande algazarra com o que ouviam uns dos outros.

Parte desse dia foi passado cheio de folia jogando mosca moscardo, ao eixo, jogando ao bicho com malhas feitas de pedras lascas, jogaram ao esconde esconde; cantaram, boiaram, mesmo jogaram a macaca e ao caracol, enfim um verdadeiro dia de pastoragem ao redor do monte de S. Miguel do Anjo. O pequeno rapas temia a volta ao quinteiro; a imagem do Conde de Margarida aterrorizava-o, agora mais que nunca depois do belo tempo que passou com seu pai no sonho guiado pela cobrinha dos olhos azuis.

Eram horas de regressar, o sol já descia no horizonte para se esconder para além daquele grande espelho que nos diziam ser o mar....... O mar que tantas almas ainda não viram, nem quando canta ou assobia, mansinho ou quando esta zangado com a terra, que arremessa com tudo contra os penedos despedaçando mesmo os maiores navios, roubando a areia ás praias ou então enchendo-a com destroços ou algas.

Mas certos dias quando a fúria termina, enrola-se na areia deixando-a cheia de beijinhos,
deixando vaguear seu pensamento descia o monte, ao atravessar a calçada do caminho de S. Tiago chamou por seu amigo joli, para o ajudar a guiar o rebanho para dentro do quinteiro; sentia-se mais confiante com joli a seu lado; mas o medo do Conde fazia-lhe perder as forças das pernas, que iam a tremer; mas de repente um grande sorriso estampado na cara e seus olhos iluminados de contentamento; era sua mãe que o esperava junto ás escadas do solar; então entregou os animais aos cuidados de joli e correu para os braços do único refúgio e consolo da sua vida de criança.

Abraçado á mãe restou longos momentos; ate que ouviu uma vós meiguinha sussurrando a seus ouvidos...... Alcino..... Alcino; era esse o seu nome....... sua mãe dizendo, hoje o Tio não está, foi fazer uma caçada no condado de Vermoim.

Alcino ficou pasmado e perguntou, o Conde meu tio?... e como se faz que tão mal nos trata: Olha mãe, hoje vi meu pai, a cobrinha dos olhos azuis levou-me no meu sonho até junto dele... é forte e disse-me para te abraçar e te dizer que voltara para fazer justiça, para que aja festa e alegria na aldeia, para me ensinar a ler e contar e sobretudo para te amar muito e fazer de ti a Condessa de Margarida...

Por: Armando C. Sousa
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