Pocinha de lágrimas V

Segunda sopa

Alcino ficou mudo mas dentro de si a esperança nascia, ele acreditava no sonho e na realidade, mas não queria intimidar sua mãe.

Não era louco, mas acreditava no impossível; acreditava em mouras encantadas, acreditava em fadas ou riquezas escondidas em penedos; acreditava que tinha ouvido a cobrinha, que ele haveria de resgatar seu pai do degredo; acreditava no castigo das fadas visto em seu sonho; em seu intimo tinha confiança que as forças do bem sairiam vitoriosas; mas mais que tudo gostaria de ouvir o nome.

Senhora Condessa Isabel de Margarida, e vela sair com o regaço cheio de pão saciando os famintos e abrindo a porta aos peregrinos para pernoitar caminhando para S. Tiago.

Joli já vinha com umas palheiras na boca como a dar lhe os bons dias; e sua mãe já descia o escadario da cozinha com seu bornal trazendo com ela um cheirinho a pão quente que deveria fazer o regalo da cobrinha dos olhos azuis par a segunda sopa.

Vamos deixar um pouco o Alcino a levar as seus animais para o penedo do forno e voltemos a Vermoim para ver o que se passa com os caçadores.

Os cães latiam ansiosos de irem espadaçar a sua presa.

Os cavalos bem tratados estavam foliozos e impacientes; os clarins suaram, e todos partiram na pista de seus cães; os fios de aço atravessando os carreiros de caça lá estavam fazendo as primeiras vitimas; em mais que um casos os cavalos tropeçaram , cuspindo os cavaleiros indo estes cair a charcos cobertos de lodo da floresta.

Outros foram varejados para trás dando uma pirueta mesmo no traseiro do cavalo indo estatelando-se de focinho no chão. Uns mancando com as pernas esfaceladas, outros encharcados até ás orelhas, lá vieram a pé porque os cavalos não estiveram para esperar.

A esta hora Alcino já estará perto do penedo do forno, vamos ver o que se passa e voltaremos. Pachorrentamente cabras e ovelhas comiam as cristas das silvas e do mato.

Os cabritinhos e cordeiro estavam sempre atrás das tetas de suas mães, Joli encima do penedo do forno vigiava o rebanho.

Alcino depunha o seu bornal no penedo e retirava a flauta, quando de repente sentiu que as giestas moviam e cabras e ovelhas alertavam o ouvido; o cão latia mas sem medo...então Alcino viu sair para o carreiro que levava ao penedo ama enorme cobra mas de olhos reluzentes de azul cor do céu, tom suave de meiguice e doçura.

Alcino reconheceu a cobrinha sua amiga , mas teve medo da sua grandura; mas logo se lembrou que um grande amigo terá um coração ainda maior, e ela que lhe tinha restituído uma grande esperança, seria loucura ter medo desta grande amiga; aproximou-se e foi dar um grande beijo e um abraço á agora grande cobra.

Esta lhes respondeu já me cheira a pão fresco e a malhadinha tem os uberes cheios, vai ser um regalo e uma grande surpresa para ti Alcino, mas uma doce surpresa; Alcino pegou no penico de esmalte branquinho que ele trouxe do quarto dos hospedes mas que nunca tinha servido de pote da noite; mais uma vez o passou por água e o enxugou a uma pequena toalha que andava sempre no seu bornal.

A malhadinha já estava junto de Alcino, e ali começou o rapas a mungindo as tetas da cabrita para dentro do penico e encima do pão que já tinha escarolado.

A cobra pediu a Alcino que seguisse até á fonte escondida, que levantasse a pedra em triângulo que logo jorraria água para ele se lavar e que os seus olhos se abririam para a realidade, para a magia, para o absurdo, para o bem, para a justiça, mas acima de tudo, para o bem, amor e tolerância.

Dizendo todos os que acreditam em amor serão amados, todos os que acreditam em tolerância serão tolerados, todo o que vem por bem, o bem será sua semente e germinará; a prova chegará a seu tempo, quando o bem aniquilar o mal, haverá festa e paz entre os povos; mas nunca os inimigos serão vencidos com guerras, só bombardeando os corações duros com ternura compreensão e ciência.

Retirou a pedra de três esquinas, a água começou a jorrar serenamente; com ela saia uma musica de embalar, tão harmoniosa que mais parecia um coro celestial; entre outras vozes pareceu que ouviu, vai agora ao penedo do forno, que alguém te esta esperando.

Correu, e em alguns minutos estava chegando ao penedo onde tinha deixado seu grande amigo Joli guardando o rebanho e a cobra comendo a sopa de pão fresco com leite da malhadinha, a surpresa foi grande; junto ao penedo estava uma lindíssima rapariga com trajos transparentes de mãos no ar dançando ao som da sua flauta que tinha saído do bornal e se movia como se fosse alguém invisível que a maneja-se.

Parou não sabendo o que pensar, mas até o rebanho tinha quedado de comer, e Joli estendia a lingua com olhos reluzentes e de ar risonho.

Alcino pegou na (croça de palha) espécie de capote de palha* para a lançar sobre os ombros, mas logo a menina rindo-se lhe diz, não te preocupes, só verás pele imaginaria; Alcino eu sou a cobrinha dos olhos azuis que muito te devo por teres acreditado nos teus sonhos, sem saberes quebraste parte de meu encanto, e agora sempre que precises de mim chama pela cobrinha de olhos azuis, e eu virei em teu socorro.

Alcino, amanhã eu te enviarei uma fada para que te ensine a ler escrever e contar, a compreenderes a natureza e o que será preciso fazer para bem da humanidade. Por hoje vamos em sonho até ao Condado do senhor de Vermoim para ver o que se passa com teu tio Conde de Margarida.

Alcino encostado ao penedo do forno fechou os olhos e entrou em sono profundo pelo condão da força mágica de sua grande amiga ; deusa encantada do penedo da fraga. . a cobrinha de olhos azuis.

Foi transportado por uma força invisível que o ser humano nunca conseguiu descobrir; o poder do sonho. Voando por entre alamedas de carvalhos e castanheiros

Espreitando por entre arbustos e charcos, subindo e descendo quase ao sabor da brisa e do latir dos cães enraivecidos pelo despedaçar do javali sem controle nem lei; mais adiante um homem estendido sem movimento e sem gemidos.

Era o Conde de Margarida, que tinha caído do cavalo quando o javali agora sem vida, fugia dos cães e se atravessou nas pernas do cavalo fazendo com que o Conde caí-se partindo a coluna que o deixou paralisado e inanimado.

Os homens do Conde de Vermoim já o procuravam por todos os lados, estando mesmo chegando atraídos pelo latido dos cães.

Alcino no seu sonho ouvia a voz da razão que lhe dizia o mal dos outros não resolve os nossos problemas, mas serás tu tua Mãe e teu Pai que tereis de resolver as dificuldades de teu tio, tornando-lhe o resto da vida mais doce e apesar do grande sofrimento que irá ter, toda a aldeia irá ganhar.

Joli latia sem parar e ao som dos latidos Alcino acordou e reparou que pelo descer do sol eram horas de regressar ao solar do Conde de Margarida.

Por: Armando C. Sousa

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