Aos meus filhos


Já se passaram tantos anos que eu andava em bicos dos pés para vós poderes dormir.
E quantas vezes acendia o lume para enxugar os panos que mijavas, tão miserável era nossa vida nesse País, em que os poderosos deixavam-nos definhar; tão pouco podíamos comprar com o dinheiro duma semana de trabalho.

Agora estais iguais a estes dois velhos que vos adoram ainda demais.

Apenas perderam a graça os nossos abusos de vos pedir beijos. Mas, quantas vezes fico triste e invejoso por não receber de vós, o beijo com a mesma fúria, e a mesma inocência.

Os meus abraços talvez fossem abusivos, mas de certeza eram dados cheios de amor, e medo de vos perder no meio da miséria e da fome.

Esses beijos e abraços eram dados com uma paixão louca por saber que eras parte do meu corpo, sim talvez beijos inconvenientes, mas não eram impostores.

Filhos; crescestes do nada, mas vossas feições se assemelhavam, e a semelham; ainda hoje os meus olhos pisqueiros e cansados pelos anos se enchem de alegria quando vos posso ter todos juntos, e viver horas de alegria com vós.

Sei que já não sentis necessidade de nós; mas nós estamos sempre à espera das vossas necessidades, estamos sempre aflitos com vossos filhos, esperando a cada dia lhes dar mais uma vitamina ou um brinquedo.

Queremos sentir seu corpo frágil, mas que pensamos que ainda faz parte de nós; fica cada vez mais difícil de lhe chegar uma camisa, ou uma toalha, mas também passará a não ser tanto importante.

Agora é muito mais importante saber que eles vão bem na escola, ou quando eles pegam num livro sem que alguém lhe peça, não fico apreensivo com a qualidade do livro, mas sim contente por o livro despertar a curiosidade de saber.

Depois fico muito contente quando os netos sabem decifrar o bem do mal, aí vejo que é mais uma vitória do nosso egoísmo, de ter uma família linda, unida, e com uma média ou superior no saber.

Ainda sentimos a preocupação, se a tosse os aflige: se não podem ir trabalhar e muitas vezes talvez cansados duma noite de prazer.

Nós sabemos que os filhos descobriram todos os salgadinhos, e os melhores pitéus da vida; os refrigerantes mais saborosos, que nós os velhos ainda não descobrimos o nome.

E que eles conhecem os lugares mais pitorescos, que nós não os descobrimos com medo de faltar dinheiro para seus estudos; mas de verdade sabíamos que tudo existia, mas sentíamos medo do futuro.

Depois que eles voaram, muitas pessoas tem feito parte do nosso mundo; mas tremo de medo só em pensar, em ver-me entrar no mundo de outras pessoas que não podem fazer parte do meu mundo.

Enchemos nossa casa de quinquilharias, e dizemos nisto resta muitos dos nossos momentos de felicidade da longa caminhada que nos conduziu a estas terras, onde os meses de brancura cegaria se não tomássemos cuidados, mas o sem preocupação do nível de vida, compensa todas as dificuldades.

Claro que os nossos melhores momentos estão sempre guardados em nosso coração.
A nossa família, que ficou além é um punhal de eterna saudade cravado em nosso coração, a nossa amizade nunca será esquecida, mesmo sem termos o suporte que tanto necessitávamos.

Agora já idosos não fazemos parte da equipa principal, não me sinto apenas mais um, no meio dos espectadores, sinto-me bem aplaudido, com a certeza de que, todos vós vos sentires felizes de nos ter feito parte desta família feliz.

E a certeza é nossa, que vós, irmãs e irmãos, genros e noras, sois parte de adultos de visão fantástica; sentimo-nos felizes de ser parte de vós.

A todos os netos e filhos também, tenhais a certeza, se a necessidade chegar em qualquer ocasião, o meu ombro estará firme para vos encostar, ou o meu colo se é que vos possa acalentar, vossa mãe que vos carregou nove meses, seus braços são macios e ainda fortes para um abraço e vos ofertar as suas ultimas calorias, para que vivais.

Por: Armando C. Sousa

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