Ao som da necessidade

Sim é verdade, ao som da necessidade tive de aprender, a fabricar sonhos, mesmo com a luz dos relâmpagos, som dos trovões, tive de aprender a dourar esses sonhos de fantasias, mas sempre acreditar que os podia tornar em alegrias.

Tinha nessa altura três flores, nascidas dos meus amores e da felicidade que era e é ainda minha metade.

Pouco a pouco iámos definhando, tão pouco tínhamos para nos alimentar, meu pensamento cansado não encontrava junto aos meus a solução, deixava divagar meu ser e previa um futuro tristonho, sem alguma coisa fazer.

Trinta e um anos de idade tinha de mergulhar na incerteza do viver, entrar na melancolia, mas desviar o percurso em que vivia; tinha de pedir, mas pedir para fugir da Felicidade e dos meus amores.

Podeis crer, que são agudas estas dores; então pedi a meu cunhado Domingos para me levar par a Bendita França trabalhar; seu trabalho era terrível, ele agonizava, mas tinha esperança… assim me fez carta de chamada, para aprendiz de maçom.

Tentando evitar a dor e de fazer meu coração explodir, deixava cair as lagrimas com um sorrir, cantava quando a vós era de chorar por ter esses três amores e aquela que me os deu deixar ficar.

Sim ao som da necessidade aprendi, a desafiar tudo, todos e a dor, aprendi a perder a paz, a esquecer a ternura dum olhar de criança, o aconchego de dois braços amigos e abandonar o partilhar, o caminho que traçamos, nas nossas juras de amor, tudo abandonar para matar a dor da pobreza.

Sabia que tinha de aprender a viver com a frieza da solidão, e com a incerteza do que acontecesse, uma outra língua, sem nada conhecer; trabalho desconhecido, ter de aprender, ali estava a minha força de vencer.

Depois chegou o minuto da partida, tive-me de vestir com a frieza da indiferença, com o beijo amargo do adeus, com as palavras balbuciadas com amargura, do cedo vou voltar.

Terrível este minuto de partida.

O ter de retirar aquelas mãos pequeninas do meu pescoço, as palavras prezas na garganta molhada, pelas lagrimas que não deixei rebentar...Oh dor do amor que és tão cruel!

Tive de aprender a adormecer meus projetos no desconhecido, embriagando-os, com o futuro sonhado no além.

Tive de aprender a transformar o perfil doloroso da paixão, no momento da partida, atirando as lagrimas para um sorriso, dizendo, vou buscar para nós todos, um paraíso.

Peguei numa gaita que tinha feito da perna duma cadeira e iniciei o toque de partida.

Oh vida… aprendi a beber os pingos das lagrimas de nostalgia, já lá estava a saudade insana, que como corrente poderosa me atraia, eu queria partir, mas não podia.

Era o momento exato de tomar as mãos, e de ter de as largar, agarrar naquelas pequeninas vozes no pensamento e experimentava traduzi-las em silencio.

Parti, regando tantas vezes a cede da saudade, engolia, mas apenas mastigava dissabores, esses de deixar meus amores em atropelos.

O percurso era amargo, mas não podia ser interrompido, tinha de distribuir o medo e a amargura, troca-las pelas frágeis fantasias de no amanhã, ter uma vida confortável e segura.

Já no comboio tive de aprender que a vida seria muito diferente sem os beijos e abraços de uma mulher, sem o gritar daquelas vozitas, e seus beijos a estalar, mas não podia a vida descontinuar, o comboio corria dando mudança de cores, e a esperança de uma vida melhor, era mais forte que ascender o fogo da paixão.

Terminava dizendo por agora tenho de viver sem ti, sem ti, sem ti sem ti, mas o dia da solidão findará, depois, voltarei e com vós meus amores, a vida será maná.

Adormeci e acordei, aí, iniciaram os espantos.

Reuni finalmente fragmentos da serenidade, reconstruí a historia da partida outra vez.

Deixei germinar o grande amor pela esposa e filhas, e amarfanhei a dor.

Não aquela dor que fazia o sangue correr das mãos rebentadas, por não saber e não estar calejadas, essas dores apenas me diziam que estava a vencer, e em pouco deixariam de doer, talvez a fortaleza do mistério do amor venceram todo o cansaço toda essa dor.

Em França trabalhei três anos e meio, do nada saber, a chefe de equipe.

Depois de cinco meses de trabalho saudoso, fiz a primeira visita a Portugal, mais seis meses esposa e filhas, foram viver comigo em França, estava vencida nossa esperança.

Nosso primeiro carrinho, e um redobrar de carinho.

Por: Armando C. Sousa

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