De tanto que já andei, não posso parar de andar
Ainda nada descansei, e tenho alguém a esperar
Pelas estações que passei
A morte amiga me deixou passar
Mas foi correndo à frente
Lá me está a esperar
Comecei da negridão, e passei à luz do dia
Entrei nos ovários ou colham
Vivi enorme alegria
Tanto rolei ou nadei
No ventre me fui alojar
Ali vivi na negridão, a crescer e a engordar
Passei a porta do céu, para no inferno entrar
E desde essa ocasião, não mais parei de chorar
Deram-me então uma mama para eu poder chupar
Crescer mais, viver ao sol, e na chuva me molhar
A morte rondou a vida
Mas de mim sempre se escondeu
Deste que entrei no inferno
Saí de dento do céu
A morte tem sido terrível
Tantas vezes me deixou passar
Mas tem a sentença a cumprir
Um dia vai-me levar
Perguntas se quero viver
Não queria, tu sabes que sou de morrer
Mas deram-me milhares de dias
Tenho-os de percorrer
Não escolhi meu viver, nem escolhi os meus pais
Não escolherei o morrer, sou igual a todos mais
Enquanto aqui estiver, eu quero ter alegria
Receber o que me der
Cantar e dançar cada dia
Sempre continuar a andar
Verão outono inverno e primavera
Até encontrar a morte
Que está lá à minha espera.
Por: Armando C. Sousa