Era uma manhã fria o sol ainda nem despontara quando um carro parou. Sentado no alpendre eu pude ver a sombra dos pés de um homem calçado com botinas de soldado. Após algum tempo de conversa com o chofer.

O carro deu partida.

O desconhecido encaminhou-se para o portão e logo o reconheci era o meu pai. Eu estava preparado para ir apanhar palhas de carnaúba naqueles dias se usava o pó para lustrar moveis. Meu pai me abraçou e disse: vim lhe buscar. Viajei naquele mesmo dia de tarde deixando meu cachorro o fiel Peralta companheiro que tanto gostava sentado entre as pernas do meu irmão.

Já faz tanto tempo, mas parece que foi ontem, quando o carro parou de frente a velha casa de taipa de alpendre, com ripas de carnaúba, agora caiada de branco, lá atrás ficou uma nuvem de poeira vermelha que encobriu o ônibus depois que desci.

Olhei para casa de longe vi a silhueta de um cão deitado no alpendre, desci apanhei minhas bolsas e caminhei até a entrada da casa o cachorro velho levantou a cabeça e latiu, eu falei calma e reconheci o Peralta o meu companheiro de caminhada por dentro das carnaúbas.

Levantou-se balançando a calda, meio desconfiado, mas ao se aproximar-se de mim, ficou todo radiante feliz corria pulava e latia me cheirou todo e subiu nas minhas pernas fiquei feliz por ele após tantos anos me reconhecer.

De àquela hora em diante não me largou mais sempre ao meu lado onde eu fosse. No palor da tarde armei uma rede no alpendre. Deitado e fiquei a lembrar de tantas coisas e como elas haviam mudado, suava muito devido ao calor. Nos meus pés lá estava o Peralta estirado preguiçosamente, já muito velho sem o vigor da juventude.

As horas passaram-se langorosamente. Chegou à hora de dormir. Naquela noite já cansado fui me recolher, mas Peralta grunhia muito lá fora então me lembrei que no passado eu dormia lá no alpendre, apanhei a rede armei na mesma escapa de dez anos atrás. Ainda estava lá no mesmo esteio de tronco de carnaúba.

Que maravilha a carnaúba serve pra tudo agora estão dizimando as carnaúbas por causa de outras culturas. Estirei-me todo para o sonhado descanso. Antes de dormir estirei o braço pra fora da rede senti aquele corpo cabeludo ali embaixo como no passado, fiquei a imaginar os dias em que ficava ate altas horas da noite dormindo neste mesmo lugar, cuidando para as raposas não invadir o galinheiro com o feroz Peralta como guarda.

Lembrei-me das manhãs cálidas em que nos caminhávamos pelas veredas cheias de carrapichos fazendo molhos de palhas pra serem transportadas por jegues pra secagem. Nos caminhos dos preás colocando fojos. Pensei nas manhãs ensolaradas que saíamos em busca dos fojos “armadilha” recolhendo os preás que caiam durante a noite.

Sempre armado de baladeira (estilingue) e das vezes que fui obrigado a retirar o Peralta das moitas de macambira, e dos banhos nas lagoas cheias de piranhas. Nos meus devaneios adormeci feliz e tranqüilo seguro pela coragem do fiel Peralta que ali estava de guarda.

Peralta era um, RND cachorro muito bonito quando novo. Ardego corríamos e vivemos uma grande amizade durante uns três anos aproximadamente até que tive que vir embora para casa só voltando depois de dez longos anos agora pra rever os meus irmãos e familiares.

O dia amanhecera claro e fresco levantei-me e fui tomar café meu irmão trouxe-me um prato com cuscuz de milho moído com ovo cosido ainda fumaçando; Ainda posso sentir a pele do milho entre os dentes, dividi o meu café com o Peralta que ali estava a meu lado. Olhei pela janela o verde da mata se espreguiçava ao longo da estrada o dia prometia muito sol sempre faz sol era raro chover.

Passei os primeiros dias em casa com família.

Os dias eram longos, tépidos, e sossegados. Eu já começava a me tornar impaciente. Deitado na rede ficava a observar no palor do poente quando as aves voltam para os ninhos. O sol tornava-se alaranjado depois esmaecia para amarelo rosado era à noite que se aproximava com seus cantos lúgubre finalmente o sol foi engolido pelo horizonte.

A noite chegava com seu manto escuro como uma cúpula e pontilhada com as primeiras estrelas.

Depois de um bom jantar todos fomos ao alpendre para um papo com a família, depois todos se dirigiram para suas redes, eu fui dormir lá no alpendre em companhia do Peralta, mas a noite esfriou e logo o tempo se enfarruscou e desabou um pé d’água que me obrigou a entrar em casa sob os protesto do Peralta.

Acordei com o dueto dos galos seresteiros da madrugada.

Olhei pelas frestas das telhas os céus noturnos parecia relutante em aceitar a luz invasora do dia, mas finalmente o dia amanhecera. O sol nascera pôr completo cheio de luz e cor. Pela janela podia ver a cambiante cor das folhas da siriguela vermelhas, e ouro contrastando com o verde da roça de milho que se estendia pros lados do riacho, que refletia as cores vivas das arvores da outra margem.

O profundo purpúreo da manhã debruçava-se por sobre as flores das silvas da frente da casa, que se espreguiçava sob o calor sol. E a neblina rala se desvanecia como um véu.

Tomei café com bolo de milho e tapioca e ovo frito e ainda dei um pouco pro Peralta, sai para o alpendre e resolvi dar uma caminhada. Chamei o Peralta o meu fiel companheiro e pé na estrada. Das profundezas da alma veio-me lembranças indefinidas como as sombras das noites enluaradas quando ia para as lagoas recolher os peixes pescados por meu irmão.

Dos fojos “armadilha” pra pegar os preás, nas trilhas de outrora. Durante a caminhada percebi que tudo mudara não havia mais fojos nem preás nem se ouvia os cantos dos bacuraus.

Eu não portava mais a minha velha baladeira com o saquinho de pedra de fogo.

Com Peralta ao meu lado pude ver que nos lugares de outrora só havia poços de petróleo e maquinas trabalhando e os caminhos cercados impedindo nossa passagem, o Peralta já não era o mesmo de vez enquanto parava para descansar sob a sombra dos pés de juazeiros, e umbuzeiros e eu pacientemente o esperava aproveitava até que tomasse fôlego para continuarmos a jornada nestes intervalos. Eu catava alguns frutos que depois saia saboreando.

Já era tarde quando resolvi voltar após ter tomado um banho no rio que agora também corria só um filete por entre as barrancas que agora ficava muito longe por causa da barragem.

O purpúreo da tarde incandescia a mata seca que ser espreguiçava no campo quando começamos a longa caminhada de volta. O sol já mergulhava no horizonte tornando a mata doirada, contrastando com céu alaranjado, prenunciando a chegada da noite, mas a claridade do dia relutava em aceitar o manto escuro da noite que cobria o ocaso como uma cúpula encobrindo o sol para o sono.

Mas a noite estava radiante fresca a lua iluminava as nossas pegadas pelas sendas por onde caminhávamos, seguidos pelas sombras da mata, nada se ouvia se não o canto dos bacuraus e a seresta dos grilos trovadores.

Eu e Peralta chegamos bem cansados, mas felizes. Naquela noite pela janela fiquei a contemplar através do luar de prata as sombras negras da noite com seus sons lúgubres de rasga mortalha.

Naquela manhã não sai fiquei a arrumar a minha bolsa deveria voltar no dia seguinte minhas férias ali haviam terminado. A tarde estava quente botei a rede nas escapas estirei-me todo observei que Peralta estava a me olhar fiquei a imaginar que será que ele pensa, mas cachorro não pensa, mas Peralta me olhava como se quisesse me dizer alguma coisa, olhei-o e disse: vai dormir Peralta.

O silêncio era profundo só quebrado pelo canto do carcará voando sobre a roça queimada só ai o Peralta abria os olhos e levantava a cabeça para confirmar se eu ainda estava ali ao seu lado, de vez enquanto passava um caminhão deixando uma nuvem de poeira na estrada passava muitos carros, era dia de feira na cidade nesse clima acho que dei um cochilo, pois quando acordei o sol estava toldado por um véu de nuvens que se amontoava na linha do horizonte o que tornava as nuvens doiradas com tons de violeta.

Finalmente meu último dia ali terminara a noite as despedida de sempre diversos irmãos e um papo gostoso até a meia noite. Naquele final da noite, dormi no alpendre em companhia do Peralta. Soprava um vento fresco do norte que trazia um cheiro de velame misturado com o cheiro ocre de umbu azedo, me embrulhei todo só despertando com o cantar dos galos seresteiros.

Quando o horizonte tornou-se rubro levantei-me recolhi a rede tomei banho tomei café e fui pra estrada. O ônibus passava por volta das sete, na saída disse: Adeus Peralta! E afaguei-lhe um carinho na cabeça, ele me acompanhou até o ponto onde o ônibus parava. Lá ficamos por vinte minutos Peralta parecia excitado nervoso, não parava quieto, parecia entender o que estava acontecendo. O sol já estava alto quando o ônibus apareceu, assim que ônibus parou entrei, Peralta queria entrar meu irmão ralhou sai fora cachorro!

Peralta desceu e o ônibus deu partida, dei adeus pra quem ficava e me acomodei. O ônibus saiu embalado deixando um rastro de pó vermelho para traz. Olhei pra fora do carro pela janela vi o Peralta correndo ao lado do carro, abri um pouco a janela entrou uma lufada de ar botei a cabeça pra fora e gritei: volta Peralta!

Meu irmão disse: ele volta. Olhei novamente para traz Peralta havia ficado, caído na beira estrada no meio da poeira estirado no chão pedi ao motorista que parasse o carro. A contra gosto ele parou, mas disse que não poderia esperar não me importei. Voltei onde estava o Peralta, ele estava tremendo, pus ele no colo e notei que ele parou de tremer eu chamei: Peralta!

Ele abriu os olhos me olhou profundamente com os olhos opaco e deu seu último suspiro nos meus braços. Peralta morrera do coração.


Autor: Gilson Cassiano De Góes

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