Despertei com um leve toque. Abri os olhos e perguntei esta na hora vi o rosto no escuro responder: cruzando. Olhei pro relógio eram 04hs horas eu ia entrar de serviço. Abri a escotilha. Olhei para fora era uma madrugada fria negra por causa da grossa cerração ouvi o sussurro das águas plácidas passando no costado do navio.

Ao longe podia ouvir o apito saudoso das embarcações cortando a neblina da noite. Apos um rápido café subi ao convés, pois logo tocaria detalhe especial para o mar e eu teria de guarnecer a praça de máquina visto que estávamos nos aproximando do canal de Corinto.

A manhã estava fria e havia uma cortina de branca a nossa frente, fiquei um instante ouvindo o marulhar das águas que chocavam-se nos bordos da embarcação, logo ouvi o apito lamentoso do custódio de Mello cortando o frio da madrugada, sinalizando sua posição.

Em virtude da pesada neblina parecendo um grosso véu nada se enxergava alem da luz do jeck na proa do navio. Guiado pelos radares o navio zingrava aquelas águas límpidas e azuladas em direção a entrada do canal. A grosa neblina parecia não querer se render à luz invasora do dia que se avizinhava. Mas finalmente o sol começou a penetrar por entre a grossa neblina expulsando a escuridão da noite. Cheio de luz e esplendor.

Seus raios reluziam nas silvas cobertas de orvalho que cintilavam como aljôfares, sob o reflexo dos raios fulgidos do sol. A relva cobria os campos que ladeavam as margens do canal como guardiãs das ribanceiras. Permitiam o escoamento das águas pluviais evitando o desmoronamento. O dia já clareava podíamos ver as comportas do canal aberto a nossa espera guarnecemos nossos postos e o barco deu maquinas a avante.

Por volta das oito horas podíamos ver rebanhos de ovelhas guiadas por pastores e cães que se deslocavam por sobre a relva verde em direção as matas mescladas de vermelho e amarela que contrastavam com o verde dos campos. A neblina se desvanecia como um véu dando lugar a uma manhã clara de primavera na Grécia.

O sol finalmente venceu a escuridão e expulsou a álgida neblina por completo e refletia-se nas cores vivas das arvores que margeava o canal. Por bombordo do navio, uma mancha de folhas colorida de tons vermelhas e amarelas corria em busca do mar lavadas pela correnteza. Mergulhavam em pequenos rodamoinhos que se desmanchava em espumas prateadas.

Havia muitos marujos debruçados na borda, olhando a paisagem deslumbrante que passava como fita de cinema mudando de cor a todo instante. Todos já se encontravam no convés se aquecendo ao sol após a longa noite álgida. Gaivotas acompanhavam o navio quase em cima da chaminé aproveitando o ar quente que dela expelia.

Saímos do canal e o velho cargueiro rumou de mar adentro zingrando as águas plácidas do Mediterrâneo. O dia continuou iluminado tépido e sossegado só o piar das gaivotas chamava a tenção pela ganância com que mergulhavam no mar em busca dos nacos de pão que os marujos atiravam para elas.

Nas praças de máquinas o calor o barulho dos motores embalava os sonhos e a melancolia dos maquinistas, as lembranças da distante terra natal. Alguns ficavam debaixo da jaqueira (ventilação) escrevendo para matar a saudade do lar. Contar as aventuras do ultimo porto, outros liam esperando as horas passar.

Quem passava pelo convés desfrutava da brisa fresca que aplainava as águas e a beleza do horizonte que se descortinava, unindo o céu azul com o mar, e do som surdo dos motores que ninava os que se recostavam para a sesta do meio dia.

A tarde caia vertiginosamente, pela proa avistávamos golfinhos pulando cruzando a proa do navio alguns parecia deixar-se tocar no bico de proa para mergulhar no ar como se quisesse voar como os pássaros. Ao longe distante víamos uma espiral de fumaça que subia na vertical alcançando as nuvens era o Etna que bocejava. Colunas de fumaça negra que subiam e depois eram levadas pelos ventos cálidos da tarde espalhando fuligem por toda Sicília.

Esta visão nos acompanhou por toda tarde.

O navio cruzava o oceano garbosamente sob o sol candente da tarde que repousava sua luz dourada nas águas plácidas do mediterrâneo. Marinheiros tiravam fotografias daquele momento mágico inesquecível para muitos nunca mais voltariam ver tamanha beleza inclusive eu nunca mais voltarei lá.

Daquele momento, agora só posso contemplar com olhos distraídos a planura das águas que passa em meus pensamentos e as espumas brancas reluzindo como perolas sob o reflexo fulgido da luz do sol poente escorrer no costado do navio. Havia uma expectativa da chegada de um novo porto, mas de repente ouvi-se o fonoclama: fies de CAV pear material volante fechar porta e escotilhas manter a condição ZULU de fechamento do material. Informação geral; o navio prepara-se para mau tempo todos deveriam abandonar o convés recolher–se às cobertas. Logo circulou os comentários que podíamos encontrar mar ruim pelo caminho.

No palor do poente o sol toldouse por um fino véu de nuvens as águas do mar tornaram cor de opalas prateada. O sol mergulhava no horizonte tingido o céu de vermelho as nuvens tornaram púrpuras contrastando com o céu alaranjado com tons rubinizados. O céu fechava-se para sono como uma cúpula negra cobrindo o mar.

A noite aproximava-se cheia de tormenta já era visível cúmulo de nuvens negras, que se precipitava prenunciando a tormenta. Passei os olhos no crepúsculo incipiente, e nada mais se avistava alem da espuma soprada pelo vento tempestuoso que agitava as águas do mar. Logo os céus se enfarruscam e desabou um temporal o mar agora estava furioso.

O navio caturrava cocorveando entre as entre as vagas alterosas. Nos corredores não se encontrava ninguém só alguns ainda conversavam nas cobertas. Sob os cobertores ouvindo o ranger da quilha sob as investidas do mar. Pela escotilha olhei para fora à noite era de cólera no mar os relâmpagos eram os únicos brilho nos céus e iluminavam as nuvens carregadas que cobrindo o brilho das estrelas, e as ondas que vergastavam o costado navio.

Quando mergulhava nas vagas profundas subia vagarosamente para ficar como uma prancha na crista da onda. Nessa hora os motores do navio mudavam de tom. O mar encapelado entrava pela proa e escorria pela popa. No passadiço podíamos ver a violência do mar à força com que as ondas se rebentavam contra o costado do navio de todos os lados como se quisesse espremer suas bordas.

Podíamos ouvir o uivo dos ventos e o barulho da arrebentação das ondas que fustigava o costado do navio que lutava contra a ira do mar. Arrastando-me caminhei para as cobertas de alojamento os corredores era tudo silencio só ouvia o zumbido dos motores e o barulho da arrebentação. Nos reparos guarnecidos os marujos enjoados.

Quase amarrados para não serem atirados contra as antepara da embarcação. Debaixo dos cobertores fique torcendo para que a noite passasse depressa alem de pedir a Deus por nossas vidas. Embrulhei-me nos cobertores no meu beliche permaneci acordado algum tempo, mas o cansaço foi maior, adormeci saudoso de minha casa tão distante.

Não sei o que se passou só me recordo que desapertei e percebi que o navio jogava com naturalidade parei para ouvir era só silencio felizmente a tormenta passara. Subi ao convés o dia amanhecia lindo com O mar espelhado só de longe víamos alguns pés de carneiro. Tocou alvorada e todos se reuniram para limpeza e arrumação das coisas que se haviam desprendido recolhimentos de mangueiras e arrumação para chegada do próximo porto.

Hoje ainda posso ouvir o uivo do vento o barulho da arrebentação das ondas vergastando o costado do navio e todas as emoções daquela noite poderosa.

Autor: Gilson Cassiano de Góes
Cors@rio


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