De vez enquanto, nas noites claras de verão me encanto ao olhar para o céu bordado de estrelas meus pensamentos vislumbram os rastros do passado. Olhar para o leste e ver a brilhante estrela refulgir luzes multicores, me trazem saudosas lembranças de minha primeira namorada.

Era uma manhã cálida, quando bati palmas na porta da casa dela e perguntei: “O Zé esta ai?” Sua mãe me respondeu: “Entre meu filho eu vou chamar”. Entrei na casa do meu amigo, conversamos algum tempo, pedi água, veio uma linda jovem, parecia ter saído do banho. Seus cabelos negros ainda escorriam gotas de água por sobre o seu busto, parecia gotas de orvalho sobre as folhas das silvas dos campos. Seu perfume encheu toda sala, parecia uma deusa saída da fonte do Olimpo.

Como uma ninfa saída de um casulo pronta pro seu primeiro vôo aproximou-se de mim trazendo um copo em cima de um pires. Olhei para aquele rosto lindo, emoldurado pelos cabelos negros, seu corpo era de uma vestal, seus lábios eram carnudos bem delineados e sedutores. Agradeci pela água, ela acenou com a cabeça e olhou-me com os seus lindos olhos negros, desde então fiquei fascinado, por aquela garota, a minha doce e inesquecível namorada. Ela foi o amor que o tempo levou, mas ainda trago guardado no meu coração, o calor dos seus abraços e nos lábios o sabor dos seus beijos. Já faz tanto tempo, porém sua lembrança está presente em meus devaneios.

No meu presente posso recordar os momentos que passamos juntos em que dividíamos as mais lindas expressões de amor e carinho.

Aos dezesseis anos. Os dias passam rápidos demais; Nesta idade eu era frívolo e extrovertido morava lá em Nazaré um pequeno povoado com meia dúzia de ruas e poucas casas. Era ali que eu reinava. Um dia como de costume eu e mais alguns colegas nos reunimos em torno do campinho de futebol, embora não gostasse de jogar, mas não tinha opção. Ali, junto com os outros soube que havia chegado do interior a irmã de um dos meus diversos.

Os garotos comentavam a respeito de sua beleza, logo todos queriam paquerar a tal garota. Os dias se passavam calmamente eu só ouvia gabolices dos meus diversos quando eles falavam a respeito dela, ufanavam-se de ser o seu pretendido, quando me perguntavam a seu respeito eu saia com evasivas sem dar a entender que também tinha esperança de conhecer a tal garota. Mais tarde vim saber que a garota era irmã do meu melhor amigo, comecei paquerá-la tornei-me incansável, mas de nada valia as minhas declarações de amor ela não me olhava, fingia não me ver até o dia em que fui à sua casa.

Com pretexto de ver meu colega foi que tive a oportunidade de conhecer aquela que seria a dona do meu coração. Comecei a freqüentar sua casa sempre com o pretexto de encontrar meu colega e assim tornei-me íntimo da família, com o tempo passei a namorar a menina que apesar de muita recusa, mas com minha persistência, cedeu aos meus madrigais.

Seus pais souberam e não ligaram, pois gostavam de mim e não se opuseram ao nosso namoro. Com o tempo descobri que ela tivera outro namorado onde morava, mas que havia rompido, mas também percebera que ela só estava comigo para não estar só. Na realidade, ela estava ali forçada porque os avos não queriam o tal noivado. Eu tinha esperança de que ela viesse a me amar, era apaixonado por ela. Nós nos víamos de duas a três vezes por semana era muito pouco para quem ama, mas que fazer, naquele tempo era assim. Quando estava longe dela eu sofria o amargor da solidão, porém quando ela estava comigo eu ficava incendiado e lhe recitava meus madrigais ao seu ouvido enquanto ela jurava-me amor sem fim, repetindo palavras lindas de amor.

Quando nos beijávamos, seus cabelos negros caiam por sobre o meu rosto provocando arrepios por todo o meu corpo. Raramente ficávamos a sós, à noitinha na frente de sua casa sentávamos em um banco de madeira e lá ficávamos namorando de duas a três horas conversando coisas fúteis e ouvindo a serenata dos grilos trovadores da mata em volta de sua casa.

Os dias passavam tépidos e calmos. Sua casa ficava de frente para o Norte e nas noites sem luar podíamos ver o céu como um manto bordado de estrelas. Às vezes estava tão baixo que tínhamos a sensação que podíamos alcançá-las, no oeste Sírius brilhante e bela, e todas as noites nos observava, um dia eu jurei-lhe que enquanto aquela estrela brilhasse jamais a esqueceria e ela ficou sendo nossa. Com sua voz melíflua ela jurou que sempre que a visse brilhar no céu, lembraria de mim, e juntos juramos amor sem fim.

Era domingo num final de tarde. O sol já se recolhia para o sono tingindo o horizonte de vermelho lilás contrastando com o azul claro do céu, que ia esmaecendo para um tom chocolate. No nascente, as nuvens se acumulavam e iam cobrindo o céu como uma mortalha ate que o sol mergulhou no horizonte e a tarde foi engolida pela escuridão.

O céu tornou-se ameaçador, já serenava quando cheguei a casa dela. Após um breve beijo ela entrou e eu fiquei conversando com os seus pais, logo o céu se enfarruscou e de súbito caiu um temporal com trovões e relâmpagos, depois de algum tempo os seus pais se recolheram e ficamos a sós. Do mato no oitão de sua casa ouvia-se um concerto de sapos animados com a chuva, pareciam menestréis cantando para as ninfas das torres, de vez em quando pirilampos invadiam nossa privacidade. No calor aconchegante fomo-nos apertando e nos descobrindo, de repente, estávamos nos abraçando com sofreguidão sobre esse acalanto nós nos amamos sob as parcas luzes dos pirilampos tendo o céu por testemunha.

Era um domingo lindo, a tarde pachorrenta estava cálida, havia uma azáfama na rua, era noite de “assustado” (baile) era os hi-fi da minha época, sai todo arrumado com minha calça de tergal.

O Sol alaranjado já esmaecera para amarelo doirado e podia se vislumbrar no céu as primeiras estrelas, por trás da casa dela. Aproximei-me calmamente. Na sua casa havia um casal de velhos e fui bem recebido por eles. Percebi que algo estava acontecendo e logo ela me apresentou seus avós e disse: eles vieram me buscar. Senti-me envenenado, ela sabia todo tempo que ia embora e demorou tanto tempo para dizer-me. Fustigado pela paixão ajoelhei-me aos seus pés pedindo para que não fosse.

Debalde a minha súplica, ela sem jeito disse-me que não poderia continuar com o nosso amor. Por imposição dos velhos pude observar que suas palavras eram cheias de eufemismo que tornavam piores as coisas. Suas evasivas eram como látego de couro que me vergastavam a alma. Minha insistência foi vã, apesar de minhas súplicas ela me disse adeus quando sai de sua casa. Derrotado, combalido pela dor da perda de um grande amor.

Caminhando pela rua com passos trôpegos, corriam lágrimas dos meus olhos e desciam pela minha face como as águas de um rio caudaloso montanha abaixo enquanto tentava esconder os soluços para que os transeuntes não percebessem.
Na rua em que eu morava sentei-me nos cômoros que ladeavam o caminho ali chorei até não ter mais lágrimas. Tendo somente a lua por testemunha.

Já tarde percebi uma brisa fresca trazendo um cheiro de velame, cai na realidade, fui para casa e tentei dormir, em vão, passei a noite em claro, e muito tempo depois me acostumei à solidão. Lágrimas de amor não matam, pois tem sabor de esperança. Passei muito tempo pensando nela, mas enfim a vida continua. Por isso procurei esquecê-la, mas guardo no coração a lembrança da minha doce e inesquecível namorada.

Era dezembro, uma tarde quente de verão. O sol parecia derreter os corpos reluzentes, de belíssimas mulheres, que de maneira insidiosa, abria-se para o sol candente do meio dia. Compelido pelo calor abrasador, dei um mergulho na água fria do mar. Impelido pelo calor ardente da areia quente, procurei um quiosque e tomei umas duas cervejas com peixe frito. Após o repasto escorei-me preguiçosamente na sombra fresca de uma árvore, para me aliviar do calor abrasador e fiquei a olhar o mar. O céu estava límpido, azulado como água-marinha, ao longe um navio deixava uma esteira de fumaça saída de sua chaminé, pensei nas quantas vezes senti-me vivendo aquele momento saindo barra afora sem saber o dia da volta, encarando semanas só vendo céu e mar de água azul anil. Fiquei a observar o navio até ele ser engolido pelo horizonte.

Muito distante o sol refletia nas dunas um amarelo topázio, o mar estava calmo e a água macia, só de vez em quando uma marola mais atrevida fazia com que a água fria viesse beijar a areia adusta, dos relevos da praia ocupados por lindos corpos bronzeados que refletiam o brilho ofuscante do sol. Olhava para elas como se olha uma vitrine a beira mar.

Meu pensamento divagava, como o desenrolar de uma fita de cinema. Minhas recordações eram reminiscências de um passado muito distante, só eram interrompidos pelos pios das gaivotas que flutuavam por sobre o mar. De vez em quando eu dava uma caturrada, mas sempre, a gaivota trazia-me a realidade.

A tarde caía langorosamente e as pessoas pouco a pouco iam embora. A praia ficou deserta, silenciosa e triste só se ouvia o murmúrio das águas, temendo o crepúsculo do entardecer. Ao longe, avistei uma silhueta que caminhava em minha direção; o olhar fúlgido do sol poente me ofuscava, não permitindo que eu pudesse ver-lhe o rosto. À medida que se aproximava eu ia esculpindo em minha mente um rosto, um corpo, uma imagem de mulher, mais perto, parecia uma ninfa no seu primeiro vôo, numa tarde linda de primavera, seu corpo era de uma vestal saída do Olimpo. Tinha uma pele bronzeada cor de cobre, gestos comedidos e um andar faceiro de adolescente, seus cabelos negros molhados, caindo sobre o seu pequeno busto, que sobre a pressão do sutiã pareciam opilar gotas d’água tal qual aljôfares acumulados nos beirais das casas nas manhãs álgidas de inverno.

Eis que me veio um pensamento das longínquas profundezas da minha imaginação, enternecidas lembranças da minha primeira e inesquecível namorada. Senti um perfume suave e um ciciar melodioso. Chamou meu nome, olhei de chofre, era ela, minha primeira namorada! Que chegando–se a mim timidamente me abraçou, passando seus longos braços em volta do meu pescoço, suas mãos aveludadas me acariciaram e sua voz melíflua me embriagava, ao sussurrar palavras lindas de amor, enquanto eu me desmanchava em madrigais.

Estávamos tão juntos que eu podia ouvir as batidas do seu coração, bem compassadas como se não houvesse pressa. Olhei seus lindos olhos negros e me senti perdido na escuridão, eu estava embriagado pelo seu cheiro, voltava a sentir aquela paixão avassaladora que me mantinha cativo a um passado tão distante.

A tarde mergulhou na sombra brumosa da noite enquanto a abóbada do céu fechava-se para o sono. Era o momento da despedida e por mais que eu a segurasse ela foi se distanciando e eu balbuciava palavras sem nexos: Adeus, linda morena, adeus. Ela se foi, misturou-se nas sombras que se avizinhavam... Foi então que ouvi o piar lamentoso da gaivota como se despedindo do dia, fiquei a observá-la voando em direção ao mar até que desapareceu envolta pelo manto escuro da noite.

Cai na realidade. Fora apenas um sonho lindo que se foi numa tarde quente de verão? Ledo engano. Feliz aquele que sonha, porque sonhar é viver o passado. Onde andará você meu amor? Quanta saudade eu sinto minha querida, se soubesse quanto gosto de você! Quem me dera encontrá-la outra vez para dizer-lhe que nunca a esqueci. Alhures que seja em setembro, quando os ventos cálidos da primavera sopram o perfume e as cores enchem nossos dias de alegria, que nessas noites mais amenas, eu possa beijar os teus lábios de carmim, expressar o meu amor e dizer-te da falta que você me faz, minha doce e inesquecível namorada!

Quem me dera eu ainda tivesse dezessete anos, quando ainda sonhava. Meu Deus! Para onde foram os meus sonhos? Hoje só resta a saudade e a paixão reprimida que restou daquele amor, o meu grande amor. Mas continuo a esperar que um dia voltemos a nos encontrar para que possa finalmente falar desse amor que nunca acabou.

Senti novamente aquele perfume e dei um salto surpreso. Olhei para trás, vi duas lindas jovens retocando a maquiagem e percebi que o perfume que emanava dali, aquele cheiro que tantas vezes ficara entranhado em meu corpo agora só de longe posso sentir! Caminhei em direção àquelas jovens bonitas e observei-as de soslaio. Vi que uma delas tinha o aspecto físico da minha primeira namorada. Parei um pouco a observá-las. Percebi que elas haviam me notado e caminharam em minha direção, estremeci todo, porém elas passaram pôr mim disfarçadamente, rindo deixando um rastro de perfume inebriante que inspirei com sofreguidão.

Deixei aquele local com medo de esquecê-la, pois “Longe dos olhos, aos poucos se esquece”.

Autor: Gilson Cassiano de Góes
"Cors@rio"